Estou aqui, sentada em frente ao computador, é sábado e faz muito frio, estou escutando MercyMe e sentindo o cheiro da comida que minha mãe está preparando. Por um breve momento me sinto como quando criança, a diferença é que em vez de um copo de leite com nescau eu seguro uma xícara de café. Ao invés de bonecas de pano e ursinhos de pelúcia espalhados pelo quarto, há pilhas de livros, alguns porta retratos e bonecas de porcelana. Não estou discutindo com minha irmã por ela ter estragado algum brinquedo meu, até porque ela está se preparando para ir trabalhar. Não estou sentindo medo por ter que tocar em meu primeiro recital de piano, mas outros medos ainda invadem meus pensamentos. Medo de ter que deixar meu quarto e ver que tudo lá fora está diferente. Medo por sabe o que deve ser feito e que fazê-lo possa me levar para longe de pessoas que amo. Medo de ver que meus amigos mudaram, não para pior ou melhor, mas simplesmente não são mais os mesmos. Medo de fazer novos amigos e depois ver esses partiram também.
Saudades de momentos e de pessoas. Saudades das brincadeiras na casa da árvore, ou dos aniversários das bonecas. Saudades de jogar volei com latinhas de coca-cola e de andar de patins na garagem do apartamento. Saudade brincar com amigas e criar um mundo imaginário embaixo da cama ou embaixo da mesa de jantar. Saudade de ir passar o dia na casa da minha vó, ajudando-a a colher bergamotas ou aprendendo a fazer massa caseira. Saudades dos amigos que fizeram esses momentos se tornarem recordações.
A xícara de café está terminando e algo me diz que preciso voltar à realidade, preciso enfrentar os medos e o dia frio lá fora, mas sei que daqui há alguns anos estarei sentindo falta desse dia, do meu quarto como ele está agora, do cheiro da comida que minha mãe está fazendo e estarei com medo do que me espera no dia de amanhã (talvez com saudades dos meus medos de hoje e feliz por tê-los enfrentado).
O medo. Sim, ele faz parte da vida. Ele está ali, esperando para ser enfrentado. Mas eu não preciso enfrentá-lo sozinha. Não preciso ficar trancada em meu quarto enquanto o inverno toma conta do mundo lá fora. Eu tenho um Deus que me traz paz no meio de qualquer situação. Um Deus que me permite passar pelo inverno para que eu compreenda a beleza da primavera e a alegria do verão. E enquanto tudo muda ao meu redor, as pessoas, as circunstâncias, Ele permanece o mesmo, ontem, hoje e sempre.
A saudade. Como não senti-la? impossível. Mas só sentimos saudades dos momentos felizes e se sinto falta da minha infância ou adolescência é porque sei que fui muito feliz. E tenho certeza que daqui a algum tempo sentirei saudade do hoje porque Deus me faz feliz no presente. E as pessoas que não vejo mais? Ah! É por isso que vou me esforçar para amar mais a Deus cada dia de minha vida, porque para onde estou indo nunca mais haverá saudades. As pessoas que mais amo estarão lá e estaremos em casa para sempre. E como eu quero estar em casa!
Minhas saudades e meus medos momentâneos não se comparam com a alegria de um dia ir para casa. E o meu hoje, vou vivê-lo da melhor maneira possível para que ele se torne uma boa recordação e para que quando mais perto do lar eu estiver, mais eu sinta a mão de Cristo me guiando em direção à Terra do Sempre.
