Era uma vez uma simples camponesa que assim como suas irmãs e amigas sonhava com um futuro mágico, cheio de brilho e perfumes, mas que vivia com o pé na lama. Ela acordava cedo para ajudar na plantação de seu pai, colhia dos frutos da terra, mas seus pensamentos vagueavam para muito longe dos cercados que contornavam as plantações, ela sonhava em um dia conhecer um príncipe que a levaria para bem longe dali e mudaria a história de sua vida para sempre. Mas a realidade era cruel e muito diferente de seus sonhos mais profundos, quando ela chegava em casa depois do longo dia de trabalho olhava para si mesma em um espelho pequeno e embaçado que ficava em um cantinho da casa e pensava "Eu nunca vou me casar com um príncipe! Olhe para mim! Tão suja, cheia de lama, não sei nem falar direito!" E desatava em prantos silenciosos, para que ninguém de sua família suspeitasse de seus lamentos e risse de seu sentimentalismo. Dormia em meio às lágrimas para no dia seguinte voltar a mesma rotina de sempre, ao menos a natureza de alguma maneira conseguia trazer brilho a sua vida tão simples. Ela era uma sonhadora que amava os cantos dos pássaros e fechava os olhos para escutar a música que os ventos produziam ao passar entre as folhas, algumas vezes a música parecia ser para ela, uma doce melodia que revelava algo além de sua vida pacata.
Dias se passaram até que um dia um príncipe apareceu em sua região. Ele era um músico e a camponesa logo se encantou com sua doce voz. Teria ela uma chance com esse príncipe cantor? Ela deveria tentar. Acordou na manhã seguinte bem cedo, arrumou-se e foi até as plantações entoando canções que sua mãe havia lhe ensinado quando criança. O príncipe que passou por ali alguns momentos depois se encantou com sua doce voz, pegou seu instrumento de cordas e começou a cantar junto a ela. Parecia um sonho, não, era mais lindo que um sonho pois ela podia sentir e ouvir claramente. Mas, a "doce" realidade durou pouco, a camponesa logo percebeu uma aliança na mão direita do príncipe que para sua surpresa revelou-lhe ser noivo de uma princesa e que estava para se casar em poucos dias. Suas esperanças acabaram e o príncipe lhe pareceu um sapo. Como ele ousava cantar junto a ela e fazê-la de boba? Essa foi sua primeira ferida em seu coração, descobriu que a vida era cruel e que ter seu coração partido doía mais do que viver um sonho que nunca se realizaria.
Mais alguns meses se passaram, a frágil camponesa voltou a sonhar com seu conto de fadas enquanto os pássaros cantavam, mas a música não era mais a mesma, um coração partido nunca volta a escutar a mesma canção com o mesmo espírito. Outro príncipe apareceu nos arredores de sua região, todas as meninas falavam de sua beleza e a camponesa voltou a sonhar, mas sonhava agora não com tanta intensidade. Porém, quando viu o príncipe, parece ter encontrado o significado da palavra príncipe encantado que vivia em seus contos. Ele era o homem mais lindo que já tinha visto, tão lindo que parecia um anjo. Quando seus olhos se encontraram com os dele, não teve dúvidas de que estava novamente apaixonada. Sonhou por dias com ele e sobre como seria sua história se ele a pedisse em casamento. Ela precisava fazer algo, queria ao menos escutar o som de sua voz. No dia seguinte soube que ele falaria em público, não fazia ideia do assunto, mas sabia que estaria presente. Se arrumou, com sua roupa mais bonita, que ainda assim era simples demais, mas tinha certeza que se tivesse oportunidade de falar com ele, faria o possível para mostrar quão doce e amável ela era. Chegou no meio do discurso, ele falava sobre assuntos políticos e ela demoraria para esquecer as palavras que ouviu. Nunca escutara tamanha arrogância. Ele falava dos pobres camponeses como se fossem a camada que trazia o desgosto ao Império, dizia que era melhor que trabalhassem e produzissem pois era nisso que se resumia sua existência. A camponesa se sentiu menor do que a mais baixinha das crianças. Sentiu sua honra ferida e as duras palavras penetrando seu coração que sangrava novamente. Pensou em como era boba em pensar que um dia seria mais do que uma simples colhedora das plantações. Era melhor se conformar afinal, os pássaros e o vento eram melhores amigos que seus sentimentos.
Mais tempo passou e sua vida parecia voltar ao normal. Esqueceu dos príncipes, das histórias, dos contos de fadas e se concentrou em seu trabalho. Um dia, ao final da tarde, quando arrumava umas velhas caixas que estavam escondidas a anos embaixo de sua cama, encontrou algumas folhas velhas e amassadas. Havia alguns escritos ali, mas ela só conseguia decifrar algumas frases. Ligou seu pequeno abajur na cabeceira da cama e leu o que não havia se consumido com o tempo, dizia: "Eu a amei com amor eterno; com amor leal a atrai". Eram as mais lindas palavras que vira em toda a sua vida. Quem era esse que tinha palavras tão puras e profundas. Seu coração parecia curar cada vez que repetia essas palavras para si mesma e guardou-as em secreto, sabendo que o escritor delas seria para sempre o seu amado e que esperaria por ele, mesmo que ele nunca viesse ou fosse apenas uma sobra do passado. Voltou às suas caixas embaixo de sua cama, esperando encontrar mais alguns escritos de seu amado, mas nada encontrou a não ser papéis queimados e rasgados. Nada poderia fazer a não ser esperar. E ela esperou.
O inverno daquele ano passou, as primeiras flores da primavera começaram a brotar, trazendo consigo o doce aroma entesourado para essa época do ano. Juntamente com a primavera, chegaram nas redondezas, um grupo de pessoas, contadores de história de um livro - era assim que os plantadores passaram a chamá-los. Dos que tinham a oportunidade de escutar suas histórias, duas reações eram comuns: ou os achavam loucos, por acreditarem que as histórias do livro eram verdadeiras; ou voltavam totalmente diferentes, como se a história tivesse mudado suas vidas para sempre, virando também contadores da história do livro. A humilde camponesa, que nunca deixara de gostar de contos de fada, foi ao encontro dos contadores de história, mal podia esperar para escutar as palavras que estavam causando reações tão adversas. Se assentou junto à pequena roda de pessoas que se aglomerava ao redor dos contadores, ansiosa para escutá-los. Sim, ela estava ansiosa e esperando uma história impressionante, mas nada que tivesse imaginado se comparava a surpresa das palavras que escutou assim que se sentou. A mesma frase que a acompanhara e aquecera seu coração no inverno frio e solitário, era a frase que estava sendo falada naquele momento: "eu a amei com amor eterno; com amor leal a atrai". Seus olhos se encheram de lágrimas novamente, mas dessa vez eram lágrimas de alegria, pois aquelas palavras pertenciam ao Autor da história que estava narrada no livro. E a história do livro era a história do próprio Autor e de seu grande amor que naquele momento era contada por aqueles homens. A história tinha um começo grandioso, um cenário grandioso, onde feitos do Autor brilhavam em poder! Infelizmente a história seguia de maneira trágica, ilustrando o grande amor do Autor e a constante fuga e desonra de sua amada. Mas o final, ah, o final! Era indescritível, inimaginável, incrível! O próprio Autor dando sua vida por sua amada, no que certamente era o momento mais trágico de todo o livro, mas não permanecendo morto, pois nem a morte era grande de mais comparada ao Autor, que volta, restaurando a honra de sua amada. Naquele mesmo instante, a camponesa soube que a história era real, como poderia não ser? A história tinha vida, que pulsava através de suas páginas, vida capaz de transformar e tocar outras vidas, inclusive a dela. Não, ela nunca mais seria a mesma, pois a melhor parte da história, era que o Autor estava vivo e que também queria transformar seu coração endurecido, se ela tão somente acreditasse nEle e o deixasse entrar em sua vida. Não havia dúvidas, ela queria, aliás, ela poderia gritar, cantar, dançar, dizendo "Eu quero!".
A partir daquele dia, ela nunca mais seria a mesma, agora ela sabia que era amada e que continuaria sendo amada para todo o sempre. Ela havia encontrado o único príncipe capaz de amá-la da maneira que ela precisava, com perfeição e intensamente. Ela não podia vê-lo, mas sabia que estava em seus pensamentos e sonhos e que um dia viria buscá-la, como prometido no livro. E ela esperaria o tempo necessário, mesmo que ainda tivesse que passar por muitos invernos frios, nunca mais estaria sozinha.
E o tempo passou, a camponesa casou com um camponês que também acreditava no Autor da história e aguardava sua volta. Ela o amou muito, pois com o coração pulsando com o grande amor do Autor, ela finalmente estava pronta para amar alguém tão imperfeito quanto ela, mas que caminhava ao seu lado, rumo ao "Felizes para sempre". Ah, ela viveu feliz, muito feliz ao lado de seu marido e filhos que chegaram depois, mas esse é só o começo. Pois depois de muitos invernos, em uma escura noite, uma voz nunca ouvida, mas familiar, a chamou em meio a seu sono, ela não sentiu medo pois o sorriso que viu a seguir, ela sabia de quem era. O Autor havia vindo buscá-la, como prometera. Ela sorriu de volta e segurou em suas mãos firmes, às mesmas que a sustentaram durante toda sua vida. E então, uma nova história começou, uma história tão bela e perfeita que somente o grande Autor poderia escrever, e Ele está escrevendo.